Evidências de um “Deep State” à brasileira em ano eleitoral?
por Wilson Roberto Vieira Ferreira
O distinto leitor já reparou em quem realmente segura a batuta da política brasileira em ano de eleição? Não são os partidos, os programas de governo ou o debate eleitoral, mas a engrenagem de um “Deep State” à brasileira. Da efêmera cobertura midiática sobre as conexões do PCC na Faria Lima ao bombardeio diário de vazamentos seletivos envolvendo do filho de Lula ao clã Bolsonaro, a burocracia do Estado deixou a neutralidade weberiana no papel para assumir o controle do timing político do país. Através do uso estratégico de operações policiais, timing judicial e uma simbiose calculada com a imprensa, o estamento burocrático transformou-se no principal ator do jogo democrático. E a crise entre o ministro André Mendonça e o STF seria a confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State brasileiro.
O leitor lembra de ter visto, ouvido ou lido alguma atualização sobre a Operação Carbono Oculto, da Polícia e Receita Federal? Aquela operação deflagrada no ano passado com o propósito de desarticular um esquema bilionário de lavagem de dinheiro e sonegação fiscal ligado ao Primeiro Comando da Capital (PCC) no setor de combustíveis e a Faria Lima – a lvagem de dinheiro do crime organizado e os “camelôs” do sistema financeiro, as fintechs.
Por acaso, também o leitor sabia que essa Operação (que causou um breve estardalhaço de uma semana na mídia) já está na sua segunda fase, a “Fluxo Oculto”?
Um clássico exemplo de “Jornalismo Snapchat”: alguns dias de manchetes e fotos emblemáticas (como a das viaturas da PF paradas em frente a um luxuoso prédio comercial da Faria Lima) para depois desaparecer do noticiário.
Enquanto a Operação Sem Desconto (sobre débitos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS) não sai das manchetes no estilo “pau-que-bate-em-Chico-bate-em Francisco”: começou com a tentativa de criar uma Lava Jato 2.0 e jogar o escândalo no colo de Lula. Depois, o vazamento de conversas entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro. Depois, entra as supostas conexões entre o filho de Lula, o Lulinha, a lobista Roberta Luchsinger o famoso “Careca do INSS” e o ex-chefe do Gabinete de Lula, Marco Aurélio Santana Ribeiro (o “Marcola”).
Três investigações autorizadas pelo STF com o nome de Lulinha, aparecendo nas investigações da fraude do INSS.
Isso, depois do ministro André Mendonça, do STF, autorizar a abertura de inquérito para investigar Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no caso do financiamento do filme Dark Horse com recursos associados ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, além de apurações sobre emissão de notas fiscais e suposta atuação parlamentar em favor do Banco.
Em pleno ano eleitoral, a Polícia Federal vem empilhando uma série de operações deflagradas para investigar desvios, fraudes e lavagem de dinheiro envolvendo figuras políticas – Operação Heritage, Operação Sem Desconto, Operação Compliance Zero, Operação Infiltrados etc.
Tudo com vazamentos de informações conduzidos por delegados lava-jatistas, que se valem dos mesmo modus operandi da Lava Jato: vazar para determinados “colonistas” do jornal O Globo.

O inquérito contra Flávio Bolsonaro, por envolvimento direto com Daniel Vorcaro, na casa dos R$ 120 milhões, ficou para trás. Agora é a vez do filho de Lula e o fim da nova pauta virtuosa que o palácio do Planalto tentava entabular: a família Bolsonaro envolvida com o novo Tarifaço de Trump e a defesa da Soberania na campanha de Lula.
Fala-se em defesa da autonomia da PF. Mas o fato é que ela continua alimentando a mídia com impressões, informações — ou com o desejo de induzir as investigações. Agora, é a vez de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha.
Fica evidente um curioso jogo, como se corporações da máquina do Estado brasileiro (PF, Receita Federal, procuradores, Ministérios Públicos etc.) atuassem como fossem, por assim dizer, um “Estado Profundo” brasileiro – manter o cenário eleitoral sob um apertado cabresto.
Como se ditassem o ritmo e a música. Para observar quem dança melhor…
Para explicarmos melhor essa proposta de análise, precisamos articular a sociologia política clássica com a análise da história recente do Brasil.
Para sustentarmos a tese de que a fronteira teórica entre Governo (agentes eletivos e passageiros) e Estado (burocracia técnica e permanente) foi obscurecida no Brasil contemporâneo pela atuação autônoma e corporativa das corporações estatais.
Vamos desenvolver em quatro eixos teóricos e empíricos. A saber:
1. A ilusão da neutralidade Weberiana: de Weber a René Armand Dreyfuss
Para Max Weber, a burocracia estatal moderna representa o ápice da racionalização ocidental: um corpo técnico, hierarquizado, impessoal, laico e desprovido de ideologia partidária, cujo papel é executar as diretrizes do governante eleito sob a égide do direito racional-legal.
No entanto, a ciência política crítica demonstra que esse “tipo ideal” weberiano raramente se realiza integralmente. Em 1964: A Conquista do Estado (1981), o cientista político René Armand Dreyfuss desmontou a premissa de neutralidade ao analisar o golpe militar de 1964. Dreyfuss demonstrou como uma elite tecno-empresarial e militar (articulada em institutos como IPES e IBAD) instrumentalizou e ocupou a máquina estatal por dentro antes e depois da deposição de João Goulart.

A lição central de Dreyfuss aplicável ao presente é: a máquina do Estado não é um instrumento neutro aguardando ordens políticas, mas uma arena de poder disputada e instrumentalizada por elites corporativas.
2. A autonomização dos “Estamentos do Estado”: o “Deep State” à brasileira
A noção de Deep State refere-se à atuação de segmentos não eleitos da burocracia pública — especialmente forças de segurança, inteligência, setores do Judiciário e forças armadas — que operam com agenda própria, à revelia das instâncias democráticas eleitas.
No caso brasileiro recente, essa atuação autônoma se manifestaria em três dinâmicas centrais:
- O Protagonismo das Corporações de Controle: Órgãos como a Polícia Federal, o Ministério Público Federal e setores do Judiciário adquiriram, a partir do início dos anos 2000 e culminando com a Operação Lava Jato, um grau sem precedentes de autonomia corporativa e capacidade de agenda-setting (definição da pauta política).
- A Seletividade e o Timing Político: As operações e seus respectivos desdobramentos em períodos eleitorais — atingindo diferentes atores do espectro político (como investigações envolvendo a família Bolsonaro ou a anulação/condução de processos contra Lula) — revelam como o ritmo das instituições policiais e judiciais interfere diretamente no processo eleitoral.
- A Simbiose com a Grande Mídia: A articulação entre vazamentos seletivos de processos sigilosos para colunistas e grandes veículos de imprensa funciona como um mecanismo de validação pública da atuação estamental, criando um ciclo no qual o sistema de justiça pauta a opinião pública e desestabiliza agentes políticos eleitos.
3. A militarização da burocracia civil (2018–2022)
A consolidação do que a tese qualifica como o novo estamento manifestou-se com particular intensidade entre 2018 e 2022. O preenchimento de mais de 6.000 cargos civis na administração pública federal por militares da ativa e da reserva (dados confirmados por levantamentos do Tribunal de Contas da União no período) representou uma alteração estrutural no funcionamento do Estado brasileiro.
Essa expansão provocou dois efeitos simultâneos:
- A Desprofissionalização Técnica: A substituição da burocracia civil de carreira por oficiais das Forças Armadas em ministérios estratégicos (como Saúde, Meio Ambiente e Minas e Energia) subverteu o princípio de insulamento burocrático e saber especializado previstos no modelo weberiano.
- A “Tutela Militar” da Máquina Pública: A presença ostensiva de fardados no núcleo do Poder Executivo funcionou como uma tentativa de institucionalizar o poder moderador das Forças Armadas por dentro do aparelho de Estado, esbatendo definitivamente as linhas entre o governo de plantão e o aparato permanente do Estado.

4. O colapso da separação entre Governo e Estado
A clássica dicotomia weberiana entre um Governo transitório e um Estado neutro deu lugar a um modelo em que as corporações estatais (policiais, judiciais e militares) atuam como atores políticos autorreferenciados.
Quando os órgãos de coerção e investigação passam a ditar o tempo da política representativa, e quando a burocracia militarizada busca moldar a governabilidade, o Estado deixa de ser o “motor da racionalização impessoal” e converte-se no principal sujeito das disputas de poder no país.
Mendonça vs. PF: a disputa dentro do Deep State
Podemos considerar a crise entre o ministro André Mendonça (STF) e a cúpula da Polícia Federal (PF) como uma confirmação empírica e um aprofundamento do conceito de Deep State (ou burocracia estamental) no Brasil.
O episódio demonstra que o aparato de coerção e justiça do Estado não é apenas autônomo em relação ao Governo eleito, mas é ele próprio um campo de batalha interno, no qual frações do estamento estatal disputam o controle da pauta midiática e política e das ferramentas de investigação.
E de mais a mais, a tese do Deep State não pressupõe um bloco homogêneo ou uma conspiração unificada, mas sim a existência de corporações públicas com agendas corporativas e políticas próprias. O embate entre o gabinete de André Mendonça e a direção da PF expõe uma disputa de controle sobre as armas do Estado:
- A tentativa de tutela judicial: ao exigir a centralização de inquéritos (como as investigações sobre fraudes no INSS e o caso envolvendo o banco Master), cobrar relatórios integrais e determinar que qualquer mudança na equipe de delegados fosse informada ao seu gabinete, o ministro tentou exercer controle rígido sobre o aparato policial.
- A reação da PF foi estamental corporativa — simbolizada pelo manifesto assinado por todos os 27 superintendentes regionais em defesa da “autonomia técnica” e contra “ingerências externas”. É uma manifestação clássica de autoconservação estamental. A corporação policial recusou-se a ser tratada como mero braço executor de um relator no STF, afirmando-se como um “órgão de Estado” imune à tutela individual de magistrados.

Mas, principalmente, o que está em jogo nessa disputa o controle do Timing Eleitoral e da Agenda-Setting – o poder de agendar a mídia.
O epicentro do atrito revela como o ritmo das apurações do Estado impacta diretamente a política partidária:
- Ponderação de Alvos e Veto Político: O avanço de apurações e o desmembramento de inquéritos pela PF atingindo figuras estratégicas do governo (como o filho do presidente Lula, “Lulinha”) de um lado, e apurações sob a relatoria de um ministro indicado pela gestão anterior (Bolsonaro) de outro, escancaram a disputa sobre quem define o ritmo e a direção dos desgastes políticos.
- Vazamentos e a Batalha Narrativa: As acusações mútuas de vazamentos seletivos de informações sigilosas para a imprensa mostram que a disputa entre a burocracia policial e a burocracia judiciária utiliza a opinião pública como arena de validação. O vazamento deixa de ser uma anomalia procedimental e passa a ser uma ferramenta de agenda-setting praticada por frações do próprio Estado.
O conflito entre André Mendonça e a Polícia Federal ilustra que o processo de racionalização burocrática previsto por Weber não gerou uma máquina neutra e laica, mas sim corporações altamente empoderadas e politizadas… pelo menos no caso brasileiro.
Wilson Roberto Vieira Ferreira – Mestre em Comunicação Contemporânea (Análises em Imagem e Som) pela Universidade Anhembi Morumbi. Doutorando em Meios e Processos Audiovisuais na ECA/USP. Jornalista e professor na Universidade Anhembi Morumbi nas áreas de Estudos da Semiótica e Comunicação Visual. Pesquisador e escritor, autor de verbetes no “Dicionário de Comunicação” pela editora Paulus, organizado pelo Prof. Dr. Ciro Marcondes Filho e dos livros “O Caos Semiótico” e “Cinegnose” pela Editora Livrus.
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Ciro Moroni Barroso
10 de agosto de 2026 6:25 pmSem dúvida a questão do Estado Profundo é a questão mais séria na Sociedade Ocidental, desde os anos 60:
Entretanto, a noção de Burocracia Estamental seria um dos aspectos de uma cooptação que é internacional: São organizações de Tecnobergs, bem mais sofisticados que os Sindicatos da Burguesia no início do séc. XX. Temos aqui oligarquias de Cartéis, Monopólios, Sociedades Secretas montadas por Banqueiros… Que se sobrepõem às políticas das classes burguesas, em cada país, e às classes políticas e burocráticas.
É o que o nosso amigo René Dreifuss nos trouxe em seguida, em seu levantamento da “Internacional Capitalista”, em 1986 =
Nos países do Atlântico Norte, certos efeitos políticos não pertencem aos eventos sociológicos das sociedades, são efeitos criados por serviços de inteligência, em detrimento dos interesses nacionais = como foi a Primeira Guerra Mundial = como foi o efeito “adolph hitler”, em nada produto natural das sociedades germânicas = como foi o fenômeno-demônio borço, produzido artificialmente, ele não é produto de si mesmo, é claro: são grupos de assessoramento permanente = e os bonecos obama, biden e trumpeta, idem, idem!!
Ciro Moroni Barroso
10 de agosto de 2026 6:53 pmO Kennedy Presidente em 1963 foi sacrificado às pressas no meio da praça… porque tentou virar a política nacional contra o Deep State como um todo, não apenas em vários pontos dolorosos = Como foi a questão do controle das agências de inteligência governamentais, etc, etc.
Mesmo Eisenhower, estadista, e muito respeitado, general condecorado, não conseguiu superar o Deep State, em 8 anos de mandato, já tendo o Hiper Lobista de Wall Street Nelson Rockefeller em cargo no governo #
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